
escrita clara
O blogue da escrita clara do jornalista e ghostwriter Júlio Roldão.
A contrariar a regra dos muitos diários em papel
que não passam das boas intenções da primeira página
e para não perder nem a mão nem a identidade.
Floresta de pianos
dia 09 mês 02 ano 11
A vantagem de viajar em classe económica é enorme – só em económica é possível sentarmo-nos ao lado de um passageiro que transporta um piano de cauda como bagagem de cabine. Em executiva – e muito menos em primeira – ninguém fica a saber o nome do passageiro do lado. Imagine-se esse negócio do piano...
E não é que foi precisamente isso que aconteceu no voo TAP de Lisboa para Fortaleza do passado dia 3 de Outubro? A meu lado, numa acanhada cadeira do Airbus A não-sei-quantos, viajou um tal de Pessoa, Dr Amauri Paula Pessoa, farmacêutico e professor universitário, seguramente jubilado, que transportava na cabine (quase literalmente) um piano de cauda.
Foi ele quem meteu conversa. Eu raramente tomo a iniciativa de falar com os passageiros do lado, mesmo em viagens longas, mas ele começou a falar do piano de cauda. Disse que era farmacêutico, professor universitário e pianista com programa na TV Fortaleza, Canal 6, todos os Sábados, às sete da tarde, com repetição nas tardes de quartas, às cinco, a las cinco en punto de la tarde.
Tive de retribuir, piano com piano se paga. Falhei-lhe de um pianista açoriano que animava os fins-de-tarde e as noites de um bar de hotel, de um dos hotéis de S. Miguel, o meu preferido nesta ilha, em parte pela existência daquele bar com piano e pianista residente.
Também este era professor, um professor que tocava piano para compor o orçamento familiar... Sempre admirei estes pianistas, quase anónimos, que se revêem em Richard Clayderman. Ao segundo gin-tónico, nenhum dos meus amigos que jamais tocaram num piano consegue ouvir o Clayderman a interpretar a “Ballade pour Adeline” sem se sonhar pianista.
Eu, um dia, já lá vão muitos anos, fiz-me passar por pianista. Foi em Paris, perto de La Madeleine, numa casa de música. Um jornalista, que trabalhava comigo no Notícias e que também tocava piano para compor o orçamento, pedira-me para lhe trazer, numa das minhas viagens a França, a partitura para piano de La Mer de Charles Trenet. E eu lá fui à Rua de Saint-Honoré, quase a chegar à Madeleine, aviar a partitura, no meu Francês de doca, como se fosse para mim. Fraquezas.
Por falar em fraquezas, há um piano em Lisboa a que me afeiçoei. É o piano do Restaurante Blu, no Hotel Marquês de Pombal onde costumo pernoitar com frequência. Já o imortalizei – passe a imodéstia – numa das minhas aguarelas.
Mas piano piano era um piano de estudo que guardava a entrada do bar Clepsidra em Coimbra, piano velho que sempre recordo fechado e a servir de encosto ao corpo meio cansado de quem bebe um último copo quando os olhos ficam mais pequenos a medir um desejo.
Júlio Roldão